Na primeira vez, foi uma conversa sem compromisso. Ele pediu uma dança, mas no fim foram duas. Conversaram muito, se abriram pouco. Ela mal soube seu nome. Estranho: Uma conversa longa e poucos detalhes. Ela bebeu demais. Quase trinta anos e passando por um divórcio sem filhos. Seu mundo estava abalado. Ele compreendeu, por isso não perguntou mais nada. Apegaram-se em superficialidades. Por horas. Levou-a de volta para suas amigas e foi embora.
Na segunda vez, poucos dias depois, o encontro foi no mesmo lugar. Um reencontro meio forçado por ela. Afinal do pouco que se lembrava daquele dia eram o local e que ele era lindo. Encontram-se. Conversaram novamente. Ela descobriu o seu nome e ele se lembrava do dela. Não houve dança, só conversa. Nenhuma bebida. Esforçou-se para guardar bem seus traços na retina. Faltou coragem pra pedir seu contato. Ora, aprendeu com a mãe que o homem tem que tomar a iniciativa. O rapaz não tomou. Pensou: Não houve interesse. Nunca mais voltaria aquele lugar. Não antes que aquela paixão platônica acabasse.
O rapaz bonito, naquele dia, voltou pra casa e ficou pensando naquela mulher. (Disso ela só soube depois). E pensou tanto e com tanta força que se martirizava por não ter pedido nem um número de telefone sequer. Ele também acabara de sair de um casamento. Não queria se arriscar. Não se arriscou e se arrependeu por isso. Voltou tantas vezes àquele lugar na esperança de reencontrá-la... Ela não estava mais lá. Nem o seu perfume pôde sentir. Ah! Como gostou daquele perfume, daquele sorriso... Lembrou ter elogiado o perfume dela. Sorriu sozinho lembrando-se daquele sorriso bonito.
Um ano depois. Exatamente um ano depois. Ela recebe um convite. Um amigo de um amigo estava aniversariando. Não deu outra. Em uma mesa estava ele. Lindo. Duas ou três doses depois ele se aproximou: “Conheço você”. “Claro!” logo respondeu. E foi assim, pequenas confissões depois, que aconteceu o primeiro e único beijo. E, de novo, nenhum número de contato foi trocado. Nenhum dos dois estava disposto a se arriscar. Os dois iniciavam novos relacionamentos. Nunca mais teriam qualquer contato.
Anos depois ele se casou novamente. Um pouco depois, ela também. Tentavam refazer a vida. Pensavam, às vezes, no que poderia ter acontecido entre eles. Sorriam para o espelho e voltavam para cama aquecida. Ele recuperou a guarda da filha. Ela, enfim, teria o filho que tanto queria. Ele, de novo, não amava a esposa, mas a queria muito bem. Ela, em sua fantasia, achou que amava o marido. Não iria se deter em uma paixão de três encontros e um beijo. Não, não.
Mais algum tempo e em outra festa o destino novamente conspirou. Ele sentado, bebia com amigos quando a viu passar. Aquele perfume e aquele sorriso ostentavam uma linda gravidez. Um amargor tomou conta de sua língua. Sua visão se tornou turva. Ela o viu. Amparada pelo marido, fingiu um repentino mal estar. Encontraram-se no lavabo. Ela disse "Oi", acariciando a barriga e com os olhos lacrimejados. Ele respondeu "Pensei em você, mas...". Mostrou a aliança. Ela disse "Eu sei. Tudo bem". E como se ela soubesse tudo que ele sentiu e passou, disse "É, a gente não deu". Ela sacudiu a cabeça e foi embora. E esse foi o fim de uma relação que nem sequer começou.
*** Pois é, também invento histórias. Histórias que bem poderiam ter acontecido. Ou não. Vai saber... Então, não fiquem aí me levando tão a sério.



2 comentários:
oohh tava esperando um final feliz :-(
mas de repente, esse foi um final feliz, mas porque ela deixou cair lágrimas?? pela gravidez? ou pela perda do que nunca foi dela?
Marcinha, amor, tu escreve mt bem, sabe disso, né? contos ou nao, tu tem o dom da escrita.
Um beijao
Nina, obrigada pelo elogio, isso me encoraja. Você não sabe como a ditadura da censura tá comendo solta pra cima de mim! rs.
Você é uma linda mesmo!
Beijos pra família toda!
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